Cinco mil corredores se aglomeram no centro do Rio. A largada, desta vez, é sob os Arcos da Lapa. Coisa linda! O percurso? Confesso que podia ter explorado melhor o mapa, mas não quis prestar atenção. A surpresa é deliciosa, torna a corrida mais interessante. Também descansa, porque alimenta a ilusão de que a linha de chegada está próxima, logo ali depois da curva. É sempre a surpresa quem me carrega até os últimos metros.
Checklist: Camiseta amarelinha. OK. Viseira. OK. Número do peito. OK. Chip da prova. OK. Frequencímetro. OK. Chip pessoal. OK. Fones de ouvido… Fones de… Ooops! Fone. Acho que vou ter que me contar só com o direito.
Um minuto de silêncio pelas vítimas dos desabamentos na Cinelândia. Alguns corredores estão excitados demais e não ouvem a orientação pelos autofalantes. Mas muitos se calam. E, por alguns instantes, a ansiedade de uma multidão se transforma em solidariedade.
De repente, o choro vira chorinho – ao vivo! – nos instrumentos dos Gênios do Chorinho, e a multidão de amarelinhos volta a se agitar. Logo depois, a buzina estridente indica a largada, quebrando a harmonia musical. Fico sempre arrepiada com a buzina. É hora de mexer as pernas! Vamboraaaaa!
Seguimos pela Rua Evaristo da Veiga. O ritmo é lento. Vou zigue-zagueando entre os corredores, procurando espaço. Meu noivo segue ao meu lado. É somente em frente ao quartel da polícia militar que conseguimos correr.
Mais um pouco e alcançamos o Teatro Municipal. Dá para ver os destroços dos prédios que caíram. O arrepio, desta vez, não é nada prazeroso. Seguimos em frente. Nem percebo quando atravessamos a Rio Branco. A cabeça está nos prédios, nos parentes das vítimas.
Chegamos à Rua Araújo de Porto Alegre. Muita sombra. Quem bom! Mal passa das oito da manhã e o termômetro já marca 24°C. Poderia ser pior. O verão até está bem ameno este ano.
Viramos à direita na Presidente Antônio Carlos. Ei! Quem é aquela louca cortando por cima da calçada? O que ela pensa que está fazendo? Quem ela pensa que está enganando? Ah, deixa pra lá… Azar o dela que não vai conhecer a sensação deliciosa de percorrer cada centímetro da prova.
Um rápido retorno e seguimos rumo ao Paço Imperial. De lá, avistamos a Perimetral e os atletas mais adiantados correndo lá em cima. Pergunto ao meu noivo se consegue vê-los e ele responde que sim, mas não gostaria. Risos. Tudo o que ele queria era estar lá em cima, observando os atrasadinhos da Primeiro de Março.
Posto de hidratação. Já? Estamos nos aproximando do marco de dois quilômetros. So far, so good. É impressionante como o condicionamento físico melhora depois que a gente faz da corrida uma rotina. Ainda me lembro do quanto era difícil correr dois quilômetros. Eu achava que ia morrer!
Curva à direita na Candelária. A turma dos cinco quilômetros segue pela esquerda, direto pela Presidente Vargas. Tchauzinho! Vou ver a paisagem lá de cima.
Tudo tem seu preço, inclusive a paisagem da Perimetral. Chega de sombra. Chega de moleza. Mais alguns passos e damos de frente com a rampa de acesso. Olho para a ladeira e lembro da Job Lane, a rua que passa por trás da casa dos meus pais e que eu faço questão de encarar toda que vez vou a São Paulo. A Job Lane é bem mais íngreme. Chego lá em cima num instante!
É muito bacana a gente passar a pé por onde só passou de carro. A paisagem lá do alto da Perimetral é fantástica! Mas o sol começa a castigar. O segundo posto de hidratação é mais do que bem-vindo. Molho a nuca, os pulsos, tomo um pouco de água. Nessas horas nunca me lembro que carrego o celular comigo e que os fones de ouvido não são à prova d’água. Tudo bem. O fone esquerdo já era mesmo… A água está estupidamente gelada. Que delícia!
A Perimetral tem pequenas inclinações. Passei por ali de carro incontáveis vezes e nunca me dei conta disso. A pé, cada subidinha é um desafio, cada decidinha é uma dádiva. Ei! Não está na hora de voltar, não? Quando acabo de me fazer a pergunta, avisto o retorno. Ufa!
Muito sol. Mais hidratação. Vamos correndo na direção contrária dos carros. Fico imaginando o que os motoristas pensam ao nos ver ali. Exemplos de saúde e bem-estar? Malucos sob o sol? Ou simplesmente um bocado de gente que fecha as ruas e atrapalha o trânsito? Nunca vou saber. Só sei de mim e eu me sinto atleta – igualzinha à turma da elite, aquelas que correm o mesmo percurso em menos da metade do meu tempo. Eu tenho meus recordes e me concentro neles.
Já falei que a vista lá de cima é fantástica? Você vê a ponte Rio-Niterói, os navios de carga e os de cruzeiro. Avisto um parado no porto. Ouço um atleta gritar: “Olha o transatlântico!” Como é grande! Vêm-me à memória as imagens daquele que afundou recentemente na Itália, o Titanic dos tempos modernos. Devia ser tão grande quanto esse.
O segundo retorno demora a chegar. Vejo a placa dos seis quilômetros e me pergunto se vou conseguir chegar ao fim. Mal passei da metade da prova e já me sinto cansada. Não era para ser assim. O cansaço costuma chegar nos sete quilômetros, quase oito. Mas o sol não está dando trégua.
Acho que o mapa do trajeto, publicado no site, tinha menos postos de hidratação do que a realidade. Ou poode ser que eu não tenha reparado. (Eu não falei que as surpresas são sempre agradáveis?) Repito o ritual: Molho a nuca, os pulsos, tomo um pouco de água. Ah, que delícia! Há tantos copos pelo chão que é preciso tomar cuidado para não tropeçar. Sinal de que muita gente já passou por ali. Sinal de que fiquei para trás. Forçaaaaa!
No último trecho da Perimetral, todo mundo parece correr no mesmo ritmo: o rapaz gordinho ao meu lado, a menina do rabo de cavalo comprido à frente, o coroa à esquerda. Olho para o lado. Cadê o meu noivo? Há quanto tempo já não está ao meu lado? O joelho deve ter dado sinal vermelho… Só torno a vê-lo na descida do viaduto. Ele, lá em cima. Eu, descendo. Parece cansado, mas segue em frente. É isso aí, Guga!
“Para baixo, todo santo ajuda. Até o diabo empurra!”, diz a minha mãe. Eu deixo as pernas irem e sinto o vento no rosto. O cansaço dos seis quilômetros fica para trás. Acelero rumo à sombra da Avenida Presidente Vargas.
Estou em casa. A Presidente Vargas fez parte do último percurso. Dos ônibus e vans, a gente ouve os gritos de incentivo. O termômetro marca 29°C. Será que esse pessoal tem consciência da força que tem sua torcida? Acho que não. Queria que o meu pai e a minha mãe estivessem naquelas calçadas. Eles, sim, reconhecem a força das suas palavras.
No meio do caminho, um fato curioso: um casal sai dos banheiros químicos e volta a correr. Acho graça. Sempre tenho medo de sentir vontade de ir ao banheiro no meio da prova (e li em uma revista que isso não é coisa só minha!) Aqueles dois tiveram sorte: encontraram uma carreirinha de banheiros químicos bem na calçada, beirando o percurso!
No mapa, a Presidente Vargas parece bem mais longa. Juro que é pura ilusão de ótica. O Campo de Santana chega rapidinho e viramos à esquerda. Pronto. Agora já estamos quase no fim. Mais uma curva à esquerda, na Rua da Constituição, viradinha à direita na Avenida Passos e estamos na República do Paraguai. Aquela mesma República do Paraguai que quase me derrubou na última etapa. Aquela, da rampa interminável…
Quero manter o ritmo, ma as pernas não respondem. Parece que estou correndo em câmera lenta. A Catedral do Rio de Janeiro está ao meu lado. Revivo alguns momentos da última etapa: penso em caminhar, mas não desisto. Repito mentalmente: “Não vou caminhar! A linha de chegada está próxima!” Apoio-me no fator surpresa do trajeto e acredito sinceramente que a chegada está logo depois da curva.
Na verdade, não está. Mas ao descer o acesso para a Rua Evaristo da Veiga, visualizo alguns fotógrafos. Não posso estar longe! Xis para a câmera. Velocidade. Estou chegando! Não faço ideia do meu pace, nem do tempo de corrida. Na última prova fui mexer no iPod e acabei desligando. Decido não correr o mesmo risco.
Arcos da Lapa à vista. Já ouço os Gênios do Chorinho. Agora é fato: estou quase lá! Braços abertos. Aviãozinho para comemorar a vitória. Sorriso no rosto. Coração acelerado. Eu con-se-guiiiii!
Fiquei em 311° na classificação geral. Éramos 381. Ainda assim, a sensação é de pódio. Bati meu recorde pessoal. Completei dez quilômetros em uma hora e nove minutos. São dez minutos a menos do que na Corrida Panamericana, em novembro. Vitória na Lapa!